Em um gesto simbólico de reconhecimento à luta histórica dos povos indígenas, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva visitou, nesta sexta-feira (4), a Aldeia Piaraçu, situada na Terra Indígena Capoto-Jarina, no Mato Grosso. No encontro, Lula concedeu ao cacique Raoni Metuktire, de 93 anos, uma das mais altas condecorações do Estado brasileiro: a Grã-Cruz da Ordem Nacional do Mérito. Raoni, referência mundial na defesa da Amazônia e dos direitos dos povos originários, recebeu a homenagem como símbolo de décadas de resistência e sabedoria ancestral.
O presidente destacou a importância da liderança do cacique, reconhecendo-o como “guia espiritual e político” de inúmeras causas que ultrapassam fronteiras nacionais. “Raoni é uma figura que representa muito mais que seu povo. Ele é um embaixador da harmonia entre o ser humano e a natureza”, declarou Lula durante a cerimônia.
Além do líder Kayapó, o encontro contou com a presença de caciques de diferentes etnias que habitam o Parque Indígena do Xingu, território com mais de 2,6 milhões de hectares e considerado um marco na política de preservação ambiental e cultural do Brasil. Ali vivem mais de 5,5 mil indígenas, de ao menos 16 etnias diferentes, em uma região estratégica entre o Cerrado e a Floresta Amazônica.
No entanto, a ocasião não foi apenas de celebração. Com palavras firmes, Raoni aproveitou a presença do presidente para demonstrar preocupação com o futuro ambiental do país, especialmente com os planos de exploração de petróleo na Margem Equatorial, uma área marítima no litoral do Amapá, próxima à Foz do Rio Amazonas.
“Como pajé, recebi sinais do espírito da Terra. Se esse petróleo for retirado, haverá danos que não poderemos reverter. A natureza está dando seus alertas, e cabe a nós ouvir”, advertiu Raoni, que defende um modelo de desenvolvimento pautado no equilíbrio ecológico e no respeito aos saberes tradicionais.
A proposta de exploração petrolífera na região tem sido motivo de intensos debates. De um lado, defensores da iniciativa apontam o potencial econômico e energético do projeto. Do outro, ambientalistas, cientistas e lideranças indígenas alertam para os riscos de danos irreparáveis ao ecossistema marinho e às comunidades costeiras. Mesmo com pareceres iniciais do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente (Ibama) favoráveis à Petrobras, a questão ainda é cercada de controvérsias e apelos por estudos mais aprofundados.
Raoni também fez um apelo político ao presidente, pedindo que sua sucessão seja pensada com responsabilidade, para garantir a continuidade das políticas indigenistas: “O senhor precisa pensar em quem virá depois. Nosso povo precisa de continuidade na proteção dos nossos territórios e modos de vida”, afirmou.
A ministra dos Povos Indígenas, Sônia Guajajara, também participou do encontro e ressaltou os avanços do atual governo: “Já assinamos 13 decretos de homologação e emitimos 11 novas portarias declaratórias. Isso mostra nosso compromisso com a causa indígena, que é uma causa global”, declarou.
A visita à Aldeia Piaraçu foi fruto de um convite feito a Lula por lideranças locais em audiência realizada no mês anterior no Palácio da Alvorada. Segundo o governo, o objetivo da viagem foi escutar demandas e reafirmar compromissos com a proteção dos povos originários.
Em tempos de emergência climática e crescente pressão por exploração econômica da Amazônia, vozes como a de Raoni ganham ainda mais relevância. Seu chamado para a preservação não é apenas um grito de alerta, mas também um lembrete de que o futuro do planeta está intrinsecamente ligado à sabedoria e à proteção dos que sempre souberam viver em harmonia com a terra.