Lilian Dias, em seu novo romance Futuro do Pretérito, oferece ao leitor um mergulho provocativo nas complexidades da memória individual e coletiva, ambientado em um Brasil marcado por suas contradições históricas e culturais. A narrativa, conduzida pela protagonista Mariana, uma mulher sem passado que reconstrói sua identidade a partir de fragmentos do presente e vislumbres do futuro, revela uma realidade inquietante: somos tão frágeis quanto as histórias que escolhemos contar — ou esquecer.
Memória: Construção ou Emaranhado?
A abordagem não-linear de Lilian Dias coloca em xeque a ideia de memória como algo sólido. Mariana, uma sobrevivente de um acidente que a deixou sem lembranças do passado, precisa se reconstruir diariamente, a partir de conexões emocionais e culturais. Esse ponto reflete a instabilidade de nossa própria percepção histórica, em que verdades absolutas são questionadas. “O mundo não tem realidade objetiva, ele é um emaranhado de construções de narrativas que se entrecruzam e, muitas vezes, brigam entre si”, afirma a autora.
No entanto, será que uma sociedade que constantemente reconstrói sua história, esquecendo as dores e apagando as cicatrizes, pode se firmar em uma identidade coesa? Futuro do Pretérito parece nos alertar para o risco de um país que, assim como Mariana, só conhece a si mesmo através de fragmentos.
Política e Cultura: Ecos de um Brasil Fragmentado
Ao explorar as décadas de 1980 e 1990, marcadas pela redemocratização e pela luta ambiental, Lilian insere sua protagonista em um cenário de intenso conflito político e social. A relação de Mariana com Carlos, um engenheiro e militante ambiental, simboliza as contradições da época: enquanto a militância o consome, o amor se torna uma “lacuna no tempo”. É uma metáfora potente para um país que frequentemente negligencia o afeto e o cuidado em nome de causas maiores, muitas vezes deixando seus próprios cidadãos à deriva.
A Literatura Como Ferramenta de Resistência
Ao longo da trama, Mariana encontra nos livros e na música um refúgio. Eles são os elementos que a conectam com o presente e, de certa forma, com quem ela é. Esse aspecto reforça o poder da arte na construção de uma identidade, não apenas individual, mas coletiva. Lilian, com sua experiência como restauradora de livros e pesquisadora de obras raras, parece entender profundamente esse papel da cultura como um quintal de resistência e acolhimento, onde é possível recomeçar, dia após dia.
O Brasil e Sua Orfandade
Em entrevistas, a autora reflete sobre seu sentimento de orfandade em relação ao país. Futuro do Pretérito é, em última análise, uma tentativa de compreender como lidamos com as perdas — pessoais e coletivas. Como uma nação que esquece sua história pode se encontrar?
Ao final, a obra não oferece respostas fáceis. Pelo contrário, propõe uma reflexão dura: enquanto insistirmos em apagar nossas memórias em nome de um futuro idealizado, continuaremos presos em um pretérito indefinido, incapazes de compreender quem realmente somos.
Lilian Dias nos deixa com um desafio: reconstruir nossa história não apenas como indivíduos, mas como uma sociedade que acolhe suas contradições e aprende com elas. Futuro do Pretérito é mais do que um romance; é um espelho incômodo de um Brasil que ainda luta para se lembrar de si mesmo.
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